Não. Uma revisão sistemática de 16 estudos científicos em que a quiropraxia foi testada para diversos problemas de saúde – dor nas costas, dor no pescoço, dor de cabeça, cólica, asma, alergia etc. – revelou que, em quinze deles, o resultado não foi melhor que placebos.
Em um único estudo, a prática mostrou alguma eficácia contra dor nas costas, mas os tratamentos comuns ainda tiveram um desempenho melhor. O motivo é que a quiropraxia parte de um preceito errado.
Ela foi criada em 1895 por um charlatão canadense chamado Daniel David Palmer – que foi apicultor, dono de mercearia e professor de ensino infantil, mas não era médico, e se opunha a vários avanços científicos na área da saúde, como as vacinas.
Palmer era autodidata em uma série de assuntos da religião e metafísica e, no final do século 19, abriu um consultório de cura magnética (uma outra forma de terapia comprovadamente ineficaz) na cidade americana de Davenport, no estado de Iowa.
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Certo dia, o zelador do prédio em que ficava o consultório de Palmer lhe contou que, 17 anos antes, ele era operário na construção de um prédio e havia ficado parcialmente surdo após sofrer um mau-jeito nas costas.
Reza a lenda que Palmer encontrou um calombo na coluna do homem, deu um tranco e voilà: ele voltou a ouvir magicamente. Não existe qualquer evidência de que isso tenha acontecido: trata-se de uma anedota, que tem várias versões em livros e na internet.
Seja lá o que realmente aconteceu, todas as fontes confiáveis concordam que Palmer criou a quiropraxia inspirado nessa ocasião, confiante de que seria possível curar qualquer problema em qualquer parte do corpo por meio de diferentes formas de manipulação da coluna vertebral.
Ele passou a crer na existência de desarranjos nas vértebras chamados subluxações, que impediriam o fluxo de algo chamado inteligência inata. Para ele, eliminar essas subluxações resolveria até 95% dos problemas de saúde.
A palavra “subluxação” até existe na medicina, mas se refere a um problema ortopédico que tem pouco a ver com o que Palmer descreveu em 1895, quando fundou a quiropraxia.
“Inteligência inata”, por sua vez, é um devaneio puro: ele a definiu, grosso modo, como um poder de cura outorgado por Deus ou uma força vital que fluiria pelo sistema nervoso.
Hoje, vale dizer, a quiropraxia é aplicada basicamente no contexto ortopédico – poucos terapeutas a recomendam para fins tão amplos quanto os imaginados originalmente por Palmer.
Fontes: artigo “A systematic review of systematic reviews of spinal manipulation”, por E. Ernst e P. H. Canter; texto “Quiropraxia, uma ideia ruim made in USA”, na Revista Questão de Ciência, artigo “D. D. Palmer (1845-1913) e as origens da quiropraxia no século XIX”, de Selma Cosso Neves;
Pergunta de Gustavo Abreu, via email.







