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Como funcionam aqueles óculos que “corrigem” o daltonismo?

Será que eles realmente fazem daltônicos enxergarem todas as cores? Entenda para quem eles são indicados, como funcionam, os efeitos e riscos.

Por Bela Lobato 26 Maio 2026, 14h00
Como funcionam aqueles óculos que “corrigem” o daltonismo? Priorizar nos meus resultados Google

Na verdade, esses óculos não curam o daltonismo e não funcionam para todos os daltônicos. Para entender como eles funcionam, vamos começar do começo e entender o que é o daltonismo. 

Os olhos humanos são tricromatas. Isso significa que eles dependem de três tipos de cones, células especializadas em detectar diferentes faixas de cor: temos o cone que detecta vermelho, o do azul e o do verde. Em alguns tipos de daltonismo, as fronteiras entre uma cor e outra, que para o olho normal são bem distintas, ficam um pouco borradas.

É como se o seu aparelho de rádio detectasse duas estações na mesma frequência – e em vez de ouvir uma música só ou duas músicas separadamente, você ouve uma farofa indistinguível de sons e ruídos da transmissão.

É mais ou menos isso que acontece quando quem tem o tipo de daltonismo chamado deuteranomalia é colocado diante das cores verde e vermelho. O cone verde diz que aquilo é algo verde, e o cone vermelho diz que a mesma coisa é vermelha, e o cérebro acaba interpretando como um tom intermediário de marrom.

É aqui que entram os óculos que prometem apresentar todas as cores do arco-íris para os daltônicos.

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Existem óculos com mecanismos diferentes. Um dos mais comuns é o de notch filter, que tem na lente uma camada de minerais capaz de bloquear exatamente a faixa de luz onde o verde e o vermelho se sobrepõem. A lente corta o “ruído” daquela frequência confusa e cria uma barreira artificial entre os dois cones. 

Agora, o cone do vermelho recebe um sinal limpo e o do verde também. O cérebro finalmente consegue discernir um pouco melhor os dois. Leva um tempo para o cérebro se acostumar com o novo sinal que é recebido e, mesmo assim, a visão não fica equivalente à de um tricromata.

“Muitos usuários relatam uma mudança na vivacidade das cores, descrevendo maior contraste entre tons que antes pareciam indistinguíveis”, explica Flavio MacCord, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. “No entanto, estudos clínicos que utilizam testes diagnósticos padronizados, como o Teste de Ishihara ou o teste de Farnsworth-Munsell 100 Hue, demonstram consistentemente que os óculos não promovem a restauração da visão cromática normal.”

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Além disso, os óculos só funcionam para o tipo mais comum de daltonismo, as tricromacias anômalas, que ocorrem quando há uma variação em um dos cones (como a descrita acima).

Mas há ainda pessoas que são daltônicas por não terem um dos cones, casos chamados de dicromacias. Nesses casos, os óculos não funcionam, já que os olhos não conseguem interpretar nem mesmo o sinal “filtrado” pela lente. É por isso que algumas pessoas colocam o acessório e não sentem diferença nenhuma.

Tetracromatismo: quando os olhos enxergam 100 milhões de cores

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No Brasil, o acesso a esse tipo de óculos ainda é muito incomum e caro. MacCord destaca que eles não devem ser usados sem orientação médica, já que é preciso ter um diagnóstico preciso do que causa a alteração na visão e de qual o tipo de daltonismo.

“Existe uma tendência de uso para contornar restrições em exames de aptidão profissional (aviação, carreiras militares, engenharia elétrica)”, explica MacCord. “O uso do óculos não habilita o indivíduo para essas funções, pois a capacidade de discriminação real não foi restaurada, podendo gerar uma falsa sensação de segurança e riscos graves.”

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