Texto Luiza Lopes | Design e fotos Juliana Krauss | Edição Rafael BattagliaA manhã de 24 de julho de 1972 começou atípica nos corredores da Escola Politécnica da USP. Professores e alunos da engenharia elétrica se apressavam para reorganizar uma sala de aula. Tiraram carteiras, desmontaram o tablado e estenderam um tapete emprestado da diretoria para esconder o piso gasto.Do lado de fora, autoridades começavam a chegar. O então governador de São Paulo, Laudo Natel, o reitor da USP, Miguel Reale, e o bispo Dom Ernesto de Paula compunham a pequena comitiva que testemunharia um marco: a exibição pública do Patinho Feio, o primeiro computador construído no País.Pouco antes do início da demonstração, a cena foi interrompida de forma abrupta. Um repórter, ao tentar fotografar a máquina de perto, inclinou-se além do necessário, tropeçou em um dos cabos e desligou o computador diante de todos.O silêncio que se seguiu denunciou o tamanho do problema. Naquele equipamento, nada permanecia salvo. Diferentemente dos computadores de hoje, que mantêm arquivos mesmo quando desligados, o Patinho Feio perdia tudo assim que a energia caía. Como cada instrução havia sido carregada manualmente para a apresentação, todo o conteúdo desapareceu no mesmo instante.A solução teve de ser construída ali mesmo. Um dos estudantes começou a repetir para o colega, ponto a ponto, as instruções preparadas. Diante do painel, outro aluno reintroduziu cada etapa manualmente, usando os pequenos interruptores da máquina.Só então o computador pôde ser religado. O material da demonstração foi colocado no equipamento de impressão, e a máquina respondeu com o desenho de um pato feito de vários “X”, seguido da frase que se tornaria emblemática: “Eu sou o Patinho Feio”.Primeiros passosO Patinho Feio surgiu num momento em que os computadores, mesmo ainda restritos a grandes instituições, já sinalizavam uma mudança radical na forma como a sociedade funcionava. “Dava para sentir que era um ponto de inflexão do caminhar da existência humana”, afirma José Sidnei Colombo Martini, professor titular da Poli e um dos criadores da máquina.Para o Brasil, entender essa transformação e participar ativamente dela era fundamental.A necessidade de inovação coincidiu com as políticas protecionistas do regime militar, que passou a enxergar a informática como uma frente essencial em seu plano para o País. Computadores já eram usados em áreas como defesa e comunicação, e o governo temia depender apenas de máquinas importadas. Se tudo continuasse vindo de fora, o Brasil não aprenderia a projetar seus próprios sistemas e ficaria vulnerável a qualquer mudança no mercado externo.O protecionismo militar se apoiava em duas frentes. A primeira era fortalecer universidades em temas como eletrônica digital e arquitetura de computadores. A segunda era a reserva de mercado, que restringia a entrada de equipamentos estrangeiros e forçava empresas nacionais a produzir seus próprios modelos.Dentro da Poli, essa política encontrou terreno fértil. Em 1968, o professor Antônio Hélio Guerra Vieira criou o Laboratório de Sistemas Digitais (LSD), hoje chamado de Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS).O próximo passo foi a contratação de Glen Langdon, funcionário licenciado da gigante americana de tecnologia IBM. Ele ministrou uma disciplina na pós-graduação intitulada “Projetos de Sistemas Digitais”, cujo trabalho final dos alunos era projetar uma máquina do zero.A proposta chamou a atenção da direção da escola: havia ali algo que ultrapassava o caráter acadêmico e podia ganhar forma concreta. O diretor Oswaldo Fadigas, então, passou a buscar recursos para que a ideia deixasse o papel e se tornasse um protótipo real.Paralelamente, a Marinha do Brasil avaliava formas de equipar navios com tecnologia nacional. A instituição buscava projetos universitários que pudessem receber financiamento. O grupo da Poli se encaixou nessa iniciativa e passou a ganhar repasses regulares para continuar o desenvolvimento da máquina.“Foi o período mais fácil para a gente ter verba”, conta Edith Ranzini, professora sênior da Poli e responsável pela memória do computador. “Geralmente, quando você está fazendo um projeto, precisa prestar contas, esperar aprovarem para então vir a próxima parcela. Eles [a Marinha], de três em três meses, perguntavam: ‘De quanto vocês vão precisar nos próximos meses?’.”Outras universidades seguiram o mesmo caminho. A Unicamp respondeu ao desafio com o projeto “Cisne Branco”.O nome gerou brincadeiras na Poli. Ora, se Campinas tinha um cisne, como deveria se chamar o computador paulistano? Em uma reunião no laboratório, Paulo Patullo, engenheiro formado pela Poli e membro da equipe, sugeriu “Patinho Feio”, e o nome pegou.Feito do zero (e um)O Patinho Feio é bem simples para os padrões atuais. A máquina tem apenas 4 kilobytes de memória. Para comparação, em um celular comum são 80 gigabytes, mais de 20 milhões de vezes essa capacidade. A criação da Poli pesa 60 quilos, tem 1 metro de comprimento e 1 metro de altura. Ocupa o espaço de dois frigobares.Era um computador experimental, pensado para acelerar cálculos científicos. “Ele executava cada operação em cerca de dois microssegundos”, lembra Edson Fregni, professor da Poli desde 1971 e responsável pela arquitetura eletrônica da máquina. Hoje, em comparação, equipamentos modernos fazem o mesmo em bilionésimos de segundo.Para entender como o Patinho funcionava, vamos exemplificar com uma tarefa simples: somar 5 com 8. Anes de iniciar qualquer cálculo, o operador da máquina tinha de preparar os dados. Cada número precisava ser convertido para código binário. Nesse caso, o 5 vira 101 e o 8, 1000. A própria operação de soma também tinha seucódigo específico.Nada podia ser digitado diretamente, porque o Patinho não tinha teclado, tela ou mouse. Toda informação era representada por sequências de uns e zeros.Esses códigos chegavam à máquina por meio de cartões ou fita perfurada. O operador perfurava no papel os padrões correspondentes ao 5, ao 8 e à instrução de soma. Cada furo equivalia a “1”; cada espaço sem furo, “0”.Quando o cartão era inserido no leitor, um mecanismo óptico e mecânico identificava os furos e os transformava em sinais elétricos enviados ao computador. Uma alternativa ao cartão, a fita perfurada (mais longa e contínua) era usada quando era preciso alimentar a máquina com programas maiores.Depois que os sinais entravam, começava a etapa no painel frontal. Ali ficavam dezenas de pequenas chaves que o operador colocava manualmente na posição “ligado” ou “desligado”.Ajustando essas marcações, o operador dizia ao Patinho onde cada dado deveria ser guardado: primeiro escolhia um endereço da memória para armazenar o 5, depois outro para o 8 e, por fim, o endereço onde queria receber o resultado. Ao apertar o botão de execução, a máquina lia os valores nos locais certos, realizava a operação e gravava a resposta no lugar indicado.Calma que não acabou. Para saber a resposta final, o operador precisava consultar esse espaço da memória. Como o Patinho não tinha monitor, essa leitura era feita de duas maneiras. Uma era observar diretamente o painel, interpretando as luzes e posições das chaves, que mostravam a sequência de sinais correspondente ao resultado. A outra era usar o teletipo – uma espécie de máquina de escrever conectada ao computador. Ele imprimia o valor armazenado na memória, ainda em binário. Depois, o operador convertia esse número para decimal e só então sabia que a soma tinha dado 13.A construção do Patinho Feio envolveu, ao longo de cerca de um ano do projeto, umas 15 pessoas – entre professores, recém-formados e estagiários. A composição variava: alguns participavam por períodos curtos, outros se envolviam mais intensamente.“A gente não trabalhava como numa empresa, com todo mundo registrado. Alguns participaram de forma totalmente voluntária, sem bolsa de estágio, sem nada. Havia uma motivação muito forte”, lembra Sidnei. A maioria das peças precisou ser importada. “Não tinha nada no Brasil assim”, conta Ranzini. “Era tudo caro.” Qualquer circuito custava muitos dólares, e a indústria eletrônica nacional ainda se limitava à produção de rádios e televisores.“Não tínhamos a infraestrutura para fazer um grande projeto organizado, mas criamos os recursos necessários”, conta Sidnei. “Montamos uma fábrica para fazer circuitos impressos, uma tecnologia nova. Eram os primeiros componentes integrados chegando ao mercado. Havia um grande entusiasmo em comprar esses pequenos circuitos, fazê-los funcionar, criar uma fábrica pequena, um protótipo, dentro das instalações da Engenharia Elétrica.”O que veio depoisO Patinho Feio não teve uso comercial, “mas graças a ele conseguimos demonstrar que existia uma equipe com capacidade de desenvolver um computador para valer”, afirma Ranzini.Foi esse resultado que levou a Marinha a financiar a etapa seguinte: o G-10. A instituição buscava um equipamento mais potente e estável e o encomendou à Poli, em colaboração com a PUC-Rio.O G-10 era um computador de médio porte, montado de forma mais organizada e clara que o protótipo anterior. Ele já saiu do laboratório com manual, instruções de operação e um desenho claro de como cada parte funcionava. Era o resultado das tentativas e erros do Patinho Feio.Depois veio o MC 500, o primeiro computador comercial brasileiro. A fabricação ficou a cargo da Cobra (Computadores e Sistemas Brasileiros), estatal criada em 1974 para dar forma a uma política nacional de informática e transformar projetos como o G-10 em produtos.Nascia, no Brasil, uma indústria digital. Mas a alegria durou pouco.O início do fimA partir da segunda metade dos anos 1980, o cenário começou a se desfazer. A economia entrou em crise, resultado de uma série de problemas acumulados da ditadura militar.Durante o regime, o País cresceu rápido, mas às custas de forte endividamento e gasto público alto. Os juros internacionais subiram e a dívida externa aumentou. Nosso poder de compra foi para as cucuias, e a inflação saiu do controle.Nesse ambiente, qualquer investimento se tornava imprevisível, e o avanço tecnológico perdeu fôlego. As universidades, já com orçamento reduzido, tinham dificuldade para formar novos especialistas e manter laboratórios atualizados.Enquanto isso, os Estados Unidos começaram a pressionar o Brasil. Acusavam-nos de copiar tecnologias para aprender a produzi-las e criticavam as regras que limitavam a chegada de equipamentos e softwares americanos. Entre 1985 e 1988, o governo Ronald Reagan reagiu com um tarifaço sobre uma parte relevante das exportações brasileiras, o que agravou a crise.Sem margem para enfrentar novas perdas comerciais, o governo do presidente José Sarney cedeu. Flexibilizou a importação de tecnologia, afrouxou a proteção à indústria nacional de informática e abriu espaço para a entrada de empresas e investimentos estrangeiros. Isso enfraqueceu ainda mais o esforço de criar tecnologia própria.Quando Fernando Collor assumiu a Presidência, em 1990, o Brasil ainda lidava com inflação alta, indústria defasada e desconfiança internacional. Seu governo defendia que, para modernizar o País, era preciso abrir mais a economia e derrubar proteções que impediam a entrada de produtos estrangeiros.Foi nesse contexto que Collor extinguiu de vez regras que mantinham o mercado de computadores ainda relativamente fechado. A partir de então, as fabricantes nacionais passaram a competir diretamente com máquinas mais modernas e muito mais baratas vindas do exterior. O setor não resistiu.“A Cobra foi incorporada pelo Banco do Brasil e hoje é parte de sua infraestrutura de tecnologia. Outras empresas menores basicamente morreram ou mudaram de setor. Foram descaracterizadas”, diz Henrique Sampaio, jornalista e autor do livro Primeiro Contato: Como os computadores e games entraram nos lares dos brasileiros.Foi um desfecho amargo para um país que caminhava para construir sua própria trajetória tecnológica. Hoje, no campo de computadores e eletrônica, o Brasil ocupa uma posição frágil. Segundo Lucas Moscato, professor titular da Poli e responsável pelo hardware do projeto, “o País está meio ajoelhado”.“Talvez a gente reproduza algumas coisas, mas não somos competitivos nem para produzir o que precisamos, muito menos para disputar espaço num mercado internacional de alta tecnologia”, diz Moscato.“Como a gente perdeu essa corrida, competir com as gigantes estrangeiras é muito difícil. Investir em algo que já está tão avançado é arriscado demais. E essa era justamente a questão nos anos 1980: aquele era o ponto de partida, o momento adequado para começar”, acrescenta Sampaio.Uma das consequências desse atraso é a fuga de talentos. O Brasil forma engenheiros e programadores de alto nível, reconhecidos e disputados no exterior, mas não consegue mantê-los. Como falta um mercado capaz de absorver e estimular esses profissionais, muitos acabam trabalhando fora. O resultado é que a competência existe, mas o benefício não fica por aqui.É um impasse difícil, mas não significa que o País tenha ficado parado. O Pix é prova disso. Os Estados Unidos, por exemplo, não têm um sistema único que se equipare ao nosso. Nas palavras do economista estadunidense e vencedor do Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, “o Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro” (1).A criação do Pix só foi possível porque o nosso sistema bancário acumulou, ao longo de muitas décadas, uma infraestrutura robusta e equipes técnicas experientes. “O brasileiro se vê muito como um consumidor de tecnologia estrangeira e não valoriza o próprio protagonismo nesse campo”, observa Sampaio. “Quando olhamos para a história do Patinho Feio, percebemos que temos potencial, nossa própria narrativa e nossos próprios personagens.”A lógica vale também para o que ainda pode ser construído. “Já provamos que, se nos derem os desafios, a gente chega lá. A competência existe”, conclui Patullo.A trajetória do Patinho Feio, e de outras iniciativas pioneiras como ele, não resolve as tensões atuais entre pesquisa, indústria e financiamento. Mas lembra algo essencial: sempre que há espaço para experimentar, o País consegue se reinventar.No passado, um grupo criou um computador com os recursos que tinha. Hoje, a engenharia nacional continua acumulando conhecimento e espera apenas condições para convertê-lo em novos produtos e tecnologias. Reconhecer essa história não encerra um ciclo: aponta qual próximo patinho pode virar cisne.Agradecimentos Anna Helena Reali Costa, diretora da Escola Politécnica da USP; Antonio Marcos de Aguirra Massola, professor titular da USP; Felipe Sanches, ativista, desenvolvedor de software livre e projetista de hardware livre; João José Neto, professor associado da Escola Politécnica da USP; Jorge Rady de Almeida Junior, professor associado do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS) da Poli-USP; Selma Shin Shimizu Melnikoff, professora titular da Escola Politécnica da USP. Fontes (1) artigo no site Substack “O Brasil inventou o futuro do dinheiro? E será que algum dia chegará à América?”, de Paul Krugman.