Porto rico é um arquipélago caribenho com 9,1 mil quilômetros quadrados, menos da metade do estado de Sergipe. Tem 3,2 milhões de habitantes, um pouco mais que o Distrito Federal.Por 400 anos, a Espanha controlou Porto Rico e fez dinheiro plantando cana-de-açúcar com mão de obra escravizada. No século 19, com a Coroa enfraquecida (sobretudo por causa das guerras com Napoleão), porto-riquenhos organizaram movimentos a favor da independência. O mesmo aconteceu em Cuba, a outra colônia espanhola remanescente na região.Os EUA apoiaram esses movimentos, com o objetivo de afastar a influência europeia e se consolidar como potência no continente. Em 1898, após a explosão de um navio americano (cuja causa até hoje é incerta) no porto de Havana, o Tio Sam entrou em guerra contra a Espanha e a venceu em poucos meses.Após o confronto, Porto Rico ficou sob controle dos EUA. Por lá, o país expandiu o plantio de cana e tabaco, com a maior fatia das fazendas controlada por bancos americanos. Instalou bases militares, testou bombas e até tentou proibir o uso de espanhol nas escolas.Em 1917, o país reconheceu os porto-riquenhos como cidadãos americanos – em grande parte, para que pudessem ser convocados a lutar na Primeira Guerra Mundial. Com o tempo, um movimento nacionalista emergiu em prol da independência. Os EUA repreenderam protestos e criaram uma rede de vigilância com informantes e agentes do FBI.Em 1950, os nacionalistas coordenaram uma série de ataques contra o governo americano, incluindo uma tentativa de assassinato do presidente Harry S. Truman. O país respondeu com bombardeios na ilha e a prisão de 3 mil pessoas.Em 1952, Porto Rico ganhou sua própria Constituição, em vigor até hoje. A região é um território não incorporado dos EUA, assim como outras ilhas e arquipélagos no Caribe e no Pacífico. Os porto-riquenhos têm governador próprio, escolhido via eleição, mas não votam para presidente dos EUA, ainda que Washington cuide da defesa e das relações internacionais de lá.É nesse quase país, com cinco séculos de colonização nas costas, que artistas marginalizados consolidaram o reggaeton, um gênero que floresceu nos anos 1990 e, hoje, é um dos principais exportadores da cultura latina mundo afora. Um dos maiores embaixadores do reggaeton (e de Porto Rico) é o cantor Benito Antonio Martinez Ocasio – o Bad Bunny (o apelido vem de uma foto de infância, na qual ele aparece fantasiado de coelho e com cara de mau). Aos 31 anos, ele é o artista mais ouvido do mundo: só em 2025, acumulou 19,8 bilhões de reproduções no Spotify e tornou-se, pela quarta vez, o campeão da plataforma. Em 2026, Bunny será a atração do show do intervalo do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano (e o maior evento televisivo dos EUA). Além disso, virá ao Brasil pela primeira vez com a turnê do seu álbum mais recente, DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Parte dessa turnê incluiu uma residência com 30 apresentações em Porto Rico, que estima-se ter movimentado R$ 2,2 bilhões na economia local.Em seus raps, Bunny incorpora referências de gêneros tradicionais em Porto Rico, como a bomba (criada pelos africanos escravizados, com forte presença de tambores), a plena (cujos versos serviam para espalhar notícias e acontecimentos do cotidiano) e também a salsa, consolidada em Nova York dentro da comunidade de imigrantes caribenhos.Muitas das letras de Bunny falam sobre os problemas enfrentados no arquipélago, sobretudo após o furacão Maria, em 2017, que matou 3 mil pessoas e deixou regiões por meses sem luz. O cantor apoia a independência de Porto Rico – o que rendeu críticas de Donald Trump sobre a escolha do artista para o Super Bowl.A mistura de gêneros e o componente político nas músicas não são exclusividade de Bunny, mas sim elementos que estão presentes desde a gênese do reggaeton. É o que vamos ver agora.Salada caribenhaNa virada dos anos 1960 para os anos 1970, um novo estilo de música surgiu na Jamaica: o dancehall, derivado do reggae com um ritmo mais dançante. Ele se popularizou em festas em que os responsáveis pelo som interagiam com a plateia entre (e durante) as músicas para manter o clima lá no alto. Sim: o dancehall foi uma das influências dos primeiros MCs de hip-hop, movimento que nasceu em 1973 na periferia de Nova York.Nos anos 1980, a tecnologia dos sintetizadores e das drum machines (que emulam instrumentos de percussão) trouxe para o dancehall batidas mais rápidas e novas opções de riddims (como os jamaicanos chamam a base instrumental das músicas). Na mesma época, no Panamá, descendentes de imigrantes da Jamaica (que foram ao país sobretudo para trabalhar na construção do Canal do Panamá) que cresceram ouvindo Bob Marley e cia. começaram a produzir músicas parecidas – mas em espanhol.Enquanto isso, algo similar acontecia em Nova York. Com a popularização do hip-hop e a forte presença de latinos (em 1980, havia 1,4 milhão de hispânicos na cidade), não demorou para que alguns artistas arriscassem rimas em espanhol. Um dos precursores do hip-hop latino foi o rapper Vico C, que nasceu em Nova York mas cresceu em Porto Rico. Vico gravou suas primeiras fitas em 1985 com o porto-riquenho DJ Negro (que, mais tarde, fundaria a The Noise, casa noturna que revelou alguns dos maiores talentos do reggaeton).Em 1990, o jamaicano Shabba Ranks lançou o hit “Dem Bow” (vem de they bow, “eles se curvam”; parte da letra era uma crítica às pessoas que se colocam em uma posição submissa). O produtor Bobby Digital criou a música a partir do riddim licenciado de outra canção, “Fish Market”, da dupla de dancehall Steely & Clevie.A coisa tomou grandes proporções. A base instrumental, que ficou conhecida como dembow, viralizou e virou um dos pilares do reggaeton. (Em 2021, Steely & Clevie processaram dezenas de artistas pelo uso livre de copyrights da batida em mais de 2 mil músicas; o caso ainda corre no Judiciário americano.) Dembow, dancehall, reggae em espanhol, hip-hop latino… Tudo isso foi combustível para a cena musical de Porto Rico no início dos anos 1990. Músicas dançantes, que faziam sucesso nas marquesinas (área externa e coberta das casas que abrigavam festas) e que falavam de sexo, drogas e da violência que permeava a vida na periferia. Por essas, o gênero recebeu o nome de underground.Para despontar no underground, era preciso criar laços com um produtor. Além de DJ Negro, nomes como DJ Eric e DJ Playero foram importantes para o movimento. Se eles encontrassem alguém com potencial, o próximo passo era gravar uma demo, que poderia integrar uma mixtape – compilado com faixas de vários artistas que era comercializado na rua, nos porta-malas dos carros.Playero gravava em seu apartamento num prediozinho em San Juan, capital de Porto Rico. Os artistas se enfileiravam na escadaria do edifício, com as letras anotadas em cadernos. E trabalhavam madrugada adentro. Não dava tempo de ser perfeccionista: as músicas costumavam ser gravadas num único take.Um dos artistas descobertos por Playero viria a se tornar um dos grandes nomes do gênero: Daddy Yankee, que pode ter sido o criador do termo “reggaeton”. Em 1994, improvisando em uma mixtape de Playero, ele usou a palavra em um dos versos. Em espanhol, o sufixo -tón dá a ideia de intensidade; reggaetón, portanto, seria algo como um “reggaezão” (não há consenso sobre o uso do acento agudo; na língua espanhola, há quem escreva também “reguetón”).Outra história de batismo, porém, é creditada ao artista DJ Erick, que em 1995 lançou o álbum Reggaetón Live Vol.1. O termo seria uma mistura de reggae com maratón (“maratona”), em referência aos enxutos e exaustivos processos de gravação. Seja como for, a expressão pegou – e virou sinônimo da música underground de Porto Rico.Da repressão aos hitsA ascensão do reggaeton coincidiu com o mandato do governador Pedro Rosselló (1993- 2001) e sua política de segurança pública “Mão Dura Contra o Crime” em Porto Rico. Com apoio da Guarda Nacional, a polícia realizava incursões frequentes em bairros marginalizados.Rosselló e parte da população condenavam as letras e a dança do reggaeton – o perreo, na qual os dançarinos ficam com os quadris grudados (o nome vem de perro, que significa “cachorro”, e você deve imaginar por quê). A polícia multou lojas de discos e confiscou milhares de álbuns. Para não minguar as vendas, alguns artistas lançaram versões mais comportadas, sem palavrões.No início dos anos 2000, a senadora Velda González liderou audiências públicas para tentar regular as letras do gênero. Famosa em Porto Rico pela sua carreira como atriz, González aparecia com frequência na televisão para falar sobre a hiperssexualização das mulheres nas músicas e nos clipes de reggaeton.Hoje, parte dos artistas entende que a discussão levantada por González foi necessária. “A imagem da mulher foi depreciada de muitas maneiras, e ela falou sobre isso”, disse no documentário Reggaeton (2024) a cantora Ivy Queen, pioneira do gênero e considerada a rainha do reggaeton. É aí que surgem canções mais comerciais, com uma pegada romântica e menos explícita. Produtores como o DJ Blass e a dupla Luny Tunes, que se inspiraram na bachata (um estilo da República Dominicana mais lento e melódico), foram peças-chave nessa virada, que ajudou o reggaeton a emplacar nas rádios e conseguir patrocinadores.Queen e outros artistas importantes, como Don Omar e Tego Calderón, lançaram discos de sucesso nessa época. Mas o maior fenômeno foi o álbum Barrio Fino (2004), de Daddy Yankee. É nele que está o primeiro hit global do gênero: “Gasolina”, que você ouve até hoje em casamentos e festas de formatura.A explosão de Yankee fez com que grandes gravadoras americanas, que já estavam de olho no reggaeton, se rendessem de vez ao estilo. Mas elas encontraram alguns problemas. Acontece que muitas músicas de reggaeton foram feitas sem nenhum tipo de contrato. Créditos e parcerias costumavam ser feitos com base em combinados informais. Criar um sistema de royalties seria difícil. Além disso, as gravadoras enfrentavam a queda vertiginosa das vendas de CDs, cortesia da pirataria digital. Apostar em um novo gênero, cantado em espanhol, foi considerado um negócio arriscado.Foi um período ruim para as gravadoras, mas nem tanto para os artistas, já que a internet ajudou a levar o reggaeton para mais ouvidos. Na Colômbia, o estilo encontrou a sua segunda casa. Novos artistas e produtoras deram uma roupagem mais pop ao gênero. Alguns dos maiores nomes do reggaeton hoje, como J Balvin, Karol G e Maluma, são colombianos.O cantor porto-riquenho Nicky Jam, que se mudou para a Colômbia no final dos anos 2000, foi um dos nomes que ajudaram a levantar a cena no país. Em 2016, ele foi a primeira escolha do conterrâneo Luis Fonsi para colaborar em uma canção. Conflitos na agenda impediram a participação de Nicky, e Fonsi acabou se aliando a Daddy Yankee. Em 2017, a dupla lançou o megahit “Despacito”.O clipe de “Despacito” é, até hoje, o segundo vídeo mais visto da história do YouTube – são 8,8 bilhões de visualizações (ela só perde para a música infantil “Baby Shark”, que tem 16,4 bi). Uma versão cantada em inglês por Justin Bieber ajudou a música a quebrar ainda mais barreiras, e logo vários nomes como Madonna, Beyoncé e Drake colaboraram com artistas de reggaeton.No Brasil, uma das primeiras canções do gênero é “Piriguete”, do MC Papo, lançada em 2006 (você pode pensar que é funk, mas é reggaeton). A coisa deslanchou mesmo uma década depois, com “Despacito” e as canções em espanhol de Anitta. “Ela conseguiu dar nome ao que é o reggaeton por aqui", diz Thaís Queiroz, DJ e pesquisadora do gênero. Thaís toca na ¡SÚBETE!, uma das principais baladas de reggaeton no Brasil. Ela foi fundada em 2019 e, hoje, tem bloco de Carnaval e edições especiais na Colômbia. Festas do tipo, com forte presença da comunidade de imigrantes latinos, são uma das principais ferramentas de difusão desse estilo musical por aqui.Apesar de não ter o mesmo alcance que gêneros como funk e sertanejo, o reggaeton tem se tornado cada vez mais popular no Brasil – entre o público e como fonte de inspiração para os artistas nacionais. “‘Vidigal’, do cantor Wiu, é vendido como um trap. ‘Nosso Quadro’, da Ana Castela, como sertanejo. Mas essas canções têm vários elementos que as classificariam como reggaeton”, diz Ludmilla Correira, pesquisadora e jornalista musical.O intercâmbio de referências é um caminho natural. O reggaeton nasceu de uma amálgama de gêneros. Nada mais justo que ele incorpore (e influencie) a música brasileira – que, afinal, é também música latina.A diferença linguística pode nos fazer esquecer, mas as agruras cantadas por Bad Bunny (e por seus antecessores) ressoam aqui tanto quanto no Caribe. Séculos de colonização e ditaduras criaram feridas similares por toda a América Latina. Mas criaram também uma resiliência ímpar, traduzida (e alimentada) pela arte. “Há muitas maneiras de demonstrar patriotismo e defender nossa terra”, disse Bunny em novembro ao vencer o Grammy Latino de Álbum do Ano em 2025. “Nós escolhemos a música.”