No início do século 20, já se sabia que o câncer era mais comum entre profissionais como radiologistas, limpadores de chaminé e trabalhadores que manuseavam produtos químicos. Mas a origem da doença ainda era um mistério.Foi um alívio quando se descobriu que alguns tipos de câncer eram causados por… um verme. Esse foi o achado que rendeu ao patologista Johannes Fibiger o Nobel de Medicina de 1926. O tal verme era o Spiroptera carcinoma, hoje chamado de Gongylonema neoplasticum.Fibiger chegou a essa conclusão por meio de experimentos em ratos. Após alimentá-los com baratas infectadas pelas larvas do “carcinoma”, ele observou que a maioria deles desenvolveu câncer de estômago. Fazia sentido estabelecer uma relação de causa e consequência, certo?Errado. Hoje, sabemos que o câncer ocorre quando as células se dividem de modo desenfreado. As mutações responsáveis por esse desarranjo podem acontecer por uma série de fatores – como a exposição prolongada a certos elementos químicos e à radiação, caso daquelas profissões associadas à doença.Na primeira metade do século passado, porém, mal conhecíamos nosso código genético. Fibiger errou na causa da doença – e até na doença em si. Anos depois, descobriu-se que os seus ratinhos não haviam desenvolvido câncer, e sim lesões no estômago por falta de vitamina A. Mas o prêmio ficou com ele – ainda que outros pesquisadores tenham trilhado caminhos melhores. Na mesma época, o japonês Yamagiwa Katsusaburō pintou a pele de coelhos com alcatrão de carvão e os animais desenvolveram câncer após algumas semanas. O composto foi uma das primeiras substâncias cancerígenas confirmadas. Katsusaburō foi indicado ao Nobel sete vezes, mas nunca ganhou.O maior escândalo do NobelA Fundação Alfred Nobel, responsável pelo prêmio, pisou na bola uma segunda vez em 1949 ao dar a medalha de Medicina para António Egas Moniz pelo uso da lobotomia para o tratamento de psicoses. Essa cirurgia, feita no lóbulo pré-frontal do cérebro, parecia mitigar os sintomas de condições psiquiátricas, como esquizofrenia e bipolaridade. No entanto, ela também alterava a personalidade e o intelecto dos pacientes, deixando-os extremamente apáticos – e, às vezes, sem algumas funções motoras.A lobotomia foi popular entre as décadas de 1940 e 1950. Nos EUA, 50 mil pessoas passaram pela cirurgia; no Brasil, foram mil pacientes. Um dos casos mais emblemáticos é o de Rosemary Kennedy, irmã do ex-presidente americano John F. Kennedy. Ela fez uma lobotomia aos 23 anos, a mando do pai. Após a cirurgia, não conseguiu mais falar ou mover os membros.A prática é considerada brutal e antiética. Com o surgimento dos medicamentos psiquiátricos na década de 1950, a lobotomia foi proibida em diversos países.Esses erros servem como lembrete de um dos pilares do pensamento científico: com novas evidências convincentes, qualquer teoria ou prática médica pode ser refutada – até mesmo as vencedoras do Nobel.