Há cerca de 6.200 anos, um jovem viveu um encontro extremo com um dos maiores predadores do planeta – e sobreviveu tempo suficiente para que seus ossos guardassem a história. O caso, identificado a partir de um esqueleto encontrado no leste da Bulgária e publicado na Journal of Archaeological Science: Reports, é hoje uma das evidências mais detalhadas de um ataque de leão a um humano na pré-história. Mais raro ainda: o indivíduo não morreu no momento do ataque. Ele resistiu por semanas ou meses, com ferimentos graves na cabeça, nos braços e nas pernas, em um período em que não existiam antibióticos, anestesia ou cirurgia moderna.Os restos mortais foram escavados em uma necrópole associada ao assentamento pré-histórico de Kozareva Mogila, próximo à costa do Mar Negro. O sepultamento, identificado como Túmulo 59, data do final do Eneolítico – também chamado de Idade do Cobre – uma fase de transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze, quando comunidades agrícolas já estavam bem estabelecidas no sudeste da Europa. O esqueleto pertence a um homem jovem, com idade estimada entre 16 a 18 anos, e estatura relativamente alta para a época, em torno de 1,70 a 1,75 metro.O que chamou a atenção dos pesquisadores foram as lesões no crânio. O topo e as laterais da cabeça apresentam perfurações profundas, além de marcas de compressão e depressões no osso que não se parecem com ferimentos causados por armas humanas nem com danos ocorridos após a morte. Algumas dessas marcas atravessaram completamente o osso do crânio, atingindo o interior da cavidade craniana. Em um dos pontos, um fragmento ósseo se soltou e acabou soldado novamente à parte interna do crânio durante o processo de cicatrização.A análise microscópica revelou que as bordas dessas perfurações estavam recobertas por tecido ósseo novo. Isso indica que o jovem sobreviveu ao trauma inicial e viveu tempo suficiente para que o corpo iniciasse a reparação das fraturas. Em termos médicos, trata-se de uma lesão antemortem, sofrida em vida, com sinais claros de cicatrização. Pelas características do osso regenerado, os pesquisadores estimam que ele tenha sobrevivido pelo menos dois ou três meses após o ataque.Para entender o que causou ferimentos tão específicos, a equipe comparou as marcas no crânio humano com dentes de grandes carnívoros preservados em coleções científicas. Foram analisados crânios de leões e de ursos, usando moldes de silicone e modelos digitais em 3D. O padrão das perfurações – formato oval, profundidade, espaçamento e ângulo – coincide de forma mais precisa com os dentes de um leão adulto, em especial os caninos e os dentes carniceiros, usados para rasgar carne. As dimensões das marcas são grandes demais para felinos menores, como linces, e não correspondem à dentição de ursos.Além disso, o contexto ambiental reforça essa interpretação. Durante o Eneolítico, leões ainda habitavam amplas áreas da Europa Oriental e dos Bálcãs. Evidências arqueológicas mostram que esses animais eram conhecidos pelas populações humanas da região: ossos de leão com marcas de corte indicam que, ocasionalmente, eles eram caçados e consumidos. Ainda assim, encontros diretos entre humanos e leões eram raros, e ataques bem-sucedidos, mais ainda.A distribuição das lesões sugere a dinâmica do ataque. Tudo indica que o jovem foi derrubado no chão e mordido repetidas vezes, principalmente na cabeça. Esse padrão é compatível com o comportamento típico de grandes felinos, que costumam atacar por trás ou por cima, visando o pescoço, a nuca e o crânio para imobilizar a presa. Outras lesões foram identificadas nos ossos das pernas e do braço esquerdo, possivelmente resultado de mordidas ou do impacto da queda, com danos a músculos e tendões.Um dos ferimentos cranianos é particularmente grave. A perfuração atravessou o osso e provavelmente atingiu as meninges (as membranas que envolvem o cérebro). Isso significa que a integridade do tecido cerebral ficou comprometida. Mesmo sem sinais diretos no osso de hemorragia interna, a posição do fragmento ósseo soldado à parte interna do crânio sugere pressão contínua sobre estruturas neurológicas. Em termos práticos, o jovem pode ter sofrido sequelas neurológicas importantes, como dificuldades cognitivas, alterações de comportamento ou perda de coordenação motora.Apesar disso, ele não morreu imediatamente. A cicatrização das fraturas e a ausência de sinais de infecção ativa indicam que houve algum tipo de cuidado após o ataque. Em Kozareva Mogila, outros achados arqueológicos mostram que a comunidade realizava intervenções médicas rudimentares, incluindo manipulações no crânio conhecidas como trepanações – aberturas deliberadas no osso, feitas em pessoas vivas ou mortas. No caso desse jovem, não há indícios de cirurgia, mas é provável que tenham sido usados métodos de alívio da dor, controle de inflamações e proteção das feridas.A sobrevivência prolongada levanta uma questão central para a arqueologia: quem cuidou dele? Com ferimentos graves nas pernas e no braço, ele dificilmente conseguiria caminhar longas distâncias ou realizar trabalho físico pesado, como a agricultura. A presença de cicatrização óssea sugere que alguém garantiu alimento, abrigo e proteção durante sua recuperação. Esse é um exemplo claro do que pesquisadores chamam de “bioarqueologia do cuidado”: o estudo de como sociedades antigas amparavam indivíduos feridos, doentes ou com deficiência.O sepultamento, no entanto, revela uma situação ambígua. O corpo foi enterrado em posição fetal, com as mãos à frente do rosto, em uma cova mais profunda do que a média, mas sem nenhum objeto funerário. Em comparação com outros túmulos do local, isso sugere baixo status social. Alguns pesquisadores levantam a hipótese de que sua aparência (marcada por cicatrizes profundas no rosto e no corpo) e possíveis alterações comportamentais tenham causado medo ou desconfiança na comunidade. Em várias culturas tradicionais, indivíduos com deformidades visíveis ou comportamentos incomuns eram vistos como perigosos ou socialmente ambíguos.Ainda assim, ele não foi abandonado logo após o ataque. Sobreviveu tempo suficiente para que o corpo começasse a se reparar, algo impossível sem ajuda contínua. Essa contradição revela a complexidade das relações sociais na Pré-História. A mesma comunidade que pode ter marginalizado o jovem em vida também investiu recursos para mantê-lo vivo após um trauma extremo.https://youtu.be/GJM3JvuqgYM?si=NQqngKTUk90lTW1s