A política norte-americana molda o mundo há séculos. Qualquer jornal ou portal de notícias que você consulte, hoje, vai trazer ao menos uma manchete sobre a Casa Branca. Até aqui na SUPER a gente fala bastante sobre isso.
Essa predominância não é exclusividade da vida real. No universo da ficção, o governo dos Estados Unidos é base para dezenas de obras, entre livros, filmes e séries. Na TV, o sucesso recente de House of Cards não deixa dúvidas sobre a recepção do público a esse tipo de narrativa. As intrigas e os bastidores do poder seduzem o espectador, que consome dramas e suspenses com avidez. Só nas últimas duas décadas, chegaram às telas Political Animals, Jack & Bobby, Commander In Chief, Madam Secretary e o clássico The West Wing, entre tantas outras. Mas uma série acerta em cheio na representação da política norte-americana – e ela é uma comédia.
Veep se passa no gabinete da vice-presidente dos EUA, Selina Meyer. Ela e seus assessores estão aprendendo a navegar pelo poder que o cargo fornece – e a fugir da sombra do próprio presidente. A série expressa muito bem a incompetência e a corrupção que contaminam tantas partes do governo, o que resulta em uma impossibilidade de conquistar qualquer objetivo concreto. É muito mais comum, por exemplo, vermos a Selina tentando contornar uma crise ou evitar um mal-entendido do que ajudando o país de fato – Veep mostra essa realidade de maneira clara, sarcástica, como uma sátira de todos os defeitos que pipocam nos jornais.
A primeira temporada tem oito episódios, e as cinco seguintes, dez, todas exibidas pela HBO e aclamadas pela crítica. Foi anunciado recentemente que o sétimo ano será o último, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2018. Abaixo, eu listei algumas razões para você dar uma chance a esta que é uma das melhores comédias já produzidas.
1. Julia Louis-Dreyfus + o elenco
Ela é meio que a Meryl Streep da TV dos Estados Unidos. Julia Louis-Dreyfus é recordista no Emmy: ela está empatada entre os atores que receberam o prêmio mais vezes (oito, com Cloris Leachman, a avó do filme Família Buscapé), e foi escolhida Melhor Atriz em Comédia durante todas as temporadas de Veep – são nove troféus no total, seis como protagonista e outros três por produzir o programa, vencedor de Melhor Comédia desde 2015. O reconhecimento fala por si só, mas todo esse sucesso é justificável: a performance da Julia é fenomenal. Ela entrega uma Selina hilária, às vezes sentimental, geralmente desprezível e cheia de nuances.
Mas Veep não seria a série que é se não tivesse um elenco excepcional apoiando a figura central. Todos os atores e atrizes estão integrados, com uma química maravilhosa. Cada personagem tem complexidade, e parece ter sido construído com atenção e respeito, em detalhes significativos.
2. O roteiro é uma aula de comédia
O elenco só funciona do jeito que é porque os roteiristas sabem aproveitar o melhor de cada performer. A história traz um ar de novo, talvez por abordar um tema tradicionalmente sisudo (política) de maneira sarcástica. As falas são impagáveis – é melhor você não desviar o foco um segundo sequer, porque é capaz de perder alguma piada ou referência.
A narrativa se constrói com base nas escolhas e nas decisões do time da Selina. Então tudo traz consequências, que podem ser exploradas no mesmo episódio ou temporadas depois. O importante é que nada parece feito ao acaso, e as novidades não param de chegar. A vice-presidente não pode nem escolher um sabor de sorvete em paz: aquilo certamente vai virar uma crise de relações públicas com a qual sua equipe não está preparada para lidar.
3. A política bizarra que parece a vida real
Quando a série estreou, ela funcionava mais como um comentário ácido da política em geral, debochado e exagerado, tirando sarro da posição apagada e de pouco poder real que é a de vice-presidente. Agora, as atitudes ridículas dos personagens cada vez mais se parecem com a situação atual dos EUA, em que gafes públicas são cometidas com uma periodicidade assustadora.
Caso você comece a assistir Veep agora, certamente sua impressão será diferente daquela de um fã que acompanha a comédia há tempos. Muito do que a série apontou no começo é motivo ainda maior de riso, devido ao cenário de hoje. E para quem conhece um pouco que seja do complicado sistema norte-americano, dar umas boas risadas é mais do que necessário.